Venâncio da Costa Lima
Há castas que precisam de apresentação. O Castelão não é uma delas – pelo menos não para quem já provou um tinto da Península de Setúbal com a devida atenção. O que o Castelão precisa é de contexto. E esse contexto chama-se terra, chama-se clima, chama-se história de uma região que Portugal ainda não valorizou tanto quanto merece – mas que o mundo começa a descobrir.
Na Venâncio da Costa Lima, a relação com o Castelão não começou por moda. Começou por inevitabilidade geográfica.
O Castelão é, antes de mais, uma casta portuguesa. Conhecida também por Periquita, nome popularizado pelas adegas da região, esta variedade encontrou em Palmela e em Setúbal as condições que transformam uva em argumento. Solos arenosos com influência atlântica, verões quentes mas temperados pela proximidade do Sado, noites que arrefecem o suficiente para preservar acidez e estrutura. Nenhuma equação de laboratório substitui este acidente feliz de geografia.
A Castelão produzida em solos arenosos tem uma característica que distingue os ampelógrafos: a ausência quase total de filoxera, a praga que devastou a Europa no século XIX. Muitas das vinhas mais antigas desta região sobreviveram pé-franco — um pormenor que não
é curiosidade histórica, mas argumento de terroir com consequências directas no copo.
Quem chega ao Castelão da Venâncio da Costa Lima à espera de um tinto musculado, de extracção agressiva, fica surpreendido. E surpreender com elegância é precisamente o que esta casta faz bem quando é bem tratada.
Os taninos são finos, não austeros. A fruta é vermelha — cereja, framboesa, ameixa numa fase de maior maturação — sem cair na confitagem que apaga a identidade. A acidez está presente e bem integrada, o que dá ao vinho uma verticalidade que favorece a mesa: este é um tinto que pede comida, não que a dispensa.
“O Castelão de Setúbal não grita. Fala. E quem ouve, volta.”
A cor, tipicamente rubi com reflexos violáceos nos vinhos mais jovens, vai ganhando tonalidades granada com o tempo em garrafa. A evolução é lenta e honesta — outra característica de castas que crescem em terroirs de identidade forte.
adega situa-se no coração da Denominação de Origem Controlada de Palmela, uma das mais antigas do país para vinhos tintos de qualidade. Trabalhar o Castelão aqui não é uma escolha de marketing — é uma consequência directa de décadas de conhecimento acumulado sobre o comportamento desta casta neste solo.
A vindima é feita com critério de maturação fenólica, não apenas de açúcar. A diferença é técnica, mas o resultado é sensorial: taninos maduros sem perda de frescura, aromas que se mantêm expressivos mesmo após vários anos de garrafa.
No processo de vinificação, a Venâncio da Costa Lima preserva o que o Castelão tem de mais valioso — a sua expressão varietal limpa, sem interferências de madeira nova excessiva que apague aquilo que a terra colocou na uva. Quando a barrica aparece, entra como suporte, não como protagonista.
Os vinhos tintos portugueses estão a viver um momento de reconhecimento internacional que demora décadas a construir e pode perder-se com uma geração de decisões erradas. O Castelão de Setúbal representa tudo o que pode correr bem neste processo: uma casta autóctone, num terroir irrepetível, trabalhada por uma adega com memória e critério.
Para quem procura explorar os vinhos de Portugal para além do Douro e do Alentejo — as escolhas óbvias, os nomes que toda a gente conhece —, Setúbal e Palmela oferecem aquilo que os grandes descobridores sempre procuraram: o sítio que os outros ainda não encontraram.
O Castelão da Venâncio da Costa Lima não precisa de competir com o Barco Negro nem com os grandes Alentejanos. Ocupa um espaço próprio: tintos de terroir atlântico, com acidez viva, fruta contida e uma capacidade de evolução que recompensa a paciência.
Experimente um. Guarde outro. Daqui a três anos, o segundo vai explicar o que o primeiro apenas sugeriu.
Descubra os nossos tintos castelão premiados:
Est 1914